Usinas MMGD de Investimento – É um bom negócio? (parte 4)

Nas edições anteriores, vimos como levantar os principais dados para podermos fazer uma análise econômica-financeira de uma usina.

Iremos fazer dois cenários:

  • Cenário A: Usina remota de 75kW, autoprodução remota, sendo que o investimento foi realizado pelo beneficiário da energia;
  • Cenário B: Usina remota de 75kW, autoprodução remota, sendo que o investimento foi realizado por um investidor que deseja alugar a usina.

Resumo dos valores:

  • Custo de Construção (sem o terreno): 100kWp x R$ XX,XX = R$ XX,XX
  • Geração média de energia no primeiro ano: 120kWh/kWp x 100kWp = 12.000,00kWh/mês à000kWh/ano
  • Tarifa com impostos Light no grupo B: R$1.146,70/MWh à R$ 1,14670/kWh
  • Não compensação do Fio B em 2026: R$ 126,23/MWh
  • Não compensação do Fio B em 2027: R$ 157,79/MWh
  • Não compensação do Fio B em 2028: R$ 189,34/MWh
  • Não compensação do Fio B em 2029: R$ 189,34/MWh
  • Não compensação do Fio B após 2030*: R$ 189,34/MWh

Itens importantes que não explicitamos

Para que possamos fazer os cálculos, precisamos estimar certas condições/valores. Esses valores irão influenciar e muito os resultados.

Decréscimo na geração de energia

Os módulos fotovoltaicos ao longo do tempo terão uma curva de decaimento na produção de energia, em função de sua degradação natural. A princípio, todos os módulos têm garantia de gerar pelo menos 80% da energia após 25 anos. Muitos fabricantes vão ter degradações menores do que essa, mas para critério de análise devemos usar o princípio do conservadorismo.

Dessa forma, podemos considerar que os módulos terão uma redução de geração de energia de 0,8% ao ano.

 

Inflação energética

Sabemos que a tarifa de energia aumentará nos próximos anos. Mas, quanto?

Quanto maior for o aumento da energia, maior será a economia do cliente e com isso maior o retorno financeiro. Mas, não podemos ter certeza de quanto será esse valor.

Alguns profissionais buscam informações especializadas, existem uma ou duas consultorias sobre o assunto, mas elas são caras para o pequeno integrador. Uma outra opção seria olhar os dados históricos desses aumentos.

Consultando várias fontes e utilizando cálculos compostos, os aumentos médios para o consumidor residencial foram entre 7 e 8% a.a. Alguns períodos como 2015-2021 esse aumento foi de 16,3% a.a. (dados da Abraceel). Ou seja, determinar esse número futuro é complexo.

Para nosso estudo, entendo que considerar uma inflação energética de 7,5% a.a. é razoável.

Custo do Imóvel

Um item importante é o custo de locação e taxas do imóvel. Mesmo que o imóvel seja próprio, deveria ser considerado um valor de aluguel na análise. Uma usina de 100kWp precisará de cerca de 1000/1200m² e o terreno escolhido não pode ter um valor imobiliário alto.

Imóveis onde o terreno tem valor para outras atividades produtivas, essas atividades costumam pagar mais pela locação do imóvel, inviabilizando o uso para usinas solares.

Iremos considerar um valor de locação + taxas de R$ 800,000/mês.

Custos de Opex

A fim e facilitar nossos cálculos, vou determinar o valor anual de Opex de cerca de 3% do valor de Capex. Para usinas de minigeração esses valores estão muito altos, mas para as de microgeração estão aceitáveis em um primeiro momento.

Mas, não esqueça de fazer os seus números.

Vamos a análise financeira

Mas, o que é uma Análise Financeira de Investimentos?

Quando falamos em análise financeira de um projeto, não estamos apenas olhando números. Estamos avaliando a viabilidade econômica de uma decisão que vai impactar um negócio por décadas. A análise financeira é o processo que responde, com clareza técnica, à seguinte pergunta: vale a pena investir nisso (em nosso caso, uma usina solar), dadas as condições atuais e futuras?

Atentem que qualquer investidor tem uma série de opções de investimentos e é necessário que tenhamos uma forma quantitativa de fazer uma escolha (comparação) racional.

Tendo essa forma quantitativa, cada individuo ou empresa, em função de sua realidade, disponibilidade de recursos e visão de futuro toma suas decisões.

Mas, quais são os princípios básicos da análise financeira

Para tomar uma decisão segura, usamos alguns pilares clássicos da engenharia econômica. Esses pilares são simples, mas poderosos, e evitam que o projeto “pareça bom” apenas no papel:

  1. Valor do Dinheiro no Tempo

Um real hoje vale mais do que um real no futuro. Isso ocorre por causa da inflação, do custo de oportunidade e dos riscos.

Se um real hoje vale mais que um real amanhã, como eu posso somar esses valores?

Na verdade, não posso. Apenas podemos somar valores se eles tiverem no mesmo tempo. Dessa forma, precisamos transformar valores futuros em valores atuais.

A essa transformação, chamamos de trazer o dinheiro a Valor Presente.

E quanto vale então o investimento?

  1. Fluxo de Caixa

É o coração da análise. No fluxo de caixa nós projetamos todas as receitas e despesas ao longo do período previsto do projeto/empreendimento (investimento inicial, manutenção, seguros, reposições, impostos etc.). A diferença entre entradas e saídas define o desempenho financeiro do projeto ao longo do tempo. Essa diferença mês a mês é o Fluxo de Caixa.

Se trouxermos todos os valores a valor presente e somarmos temos o fluxo de caixa descontado.

  1. Horizonte de Análise

Quanto maior o prazo de análise maior o retorno financeiro. Se o investimento é do próprio usuário da energia, utilizar 25 anos como prazo do projeto é bastante razoável. Para usinas de locação, particularmente prefiro iniciar as análises para os horizontes de 10, 15, 20 e 25 anos, em função dos riscos regulatórios envolvidos.

Mas isso é uma opinião pessoal.

  1. O que é Custo de Capital?

O custo de capital é o “preço do dinheiro”. De uma forma mais técnica, é a taxa mínima de retorno que um investimento precisa gerar para valer a pena para o investidor.

Todo capital tem um custo. Mesmo que o dinheiro saia do seu bolso ou da empresa, ele poderia estar rendendo em outra aplicação. Esse “rendimento alternativo perdido” é o que chamamos de custo de oportunidade — e é a base do custo de capital.

Uma observação importante que o valer a pena difere de pessoa para pessoa.

Se o projeto/investimento render menos do que o custo de capital, ele destrói valor em vez de criar.

  1. Indicadores Econômicos

Os principais indicadores que usamos (ou que o investidor utiliza) para tomada de decisão são:

  • VPL (Valor Presente Líquido): Esse número expressa o quanto o projeto gera de valor hoje, descontando o custo do capital.

Ou seja, se o VPL for negativo, significa que, da ótica do investidor, ele destrói valor e não cria.

  • TIR (Taxa Interna de Retorno): mostra o rendimento percentual do investimento.

Nesse caso, buscamos calcular o valor % que faz com que o VPL seja zero, ou seja o investimento não cria nem destrói valor ao longo do tempo. É bastante utilizado como análise inicial ou quando não sabemos qual o custo de capital dos possíveis investidores.

  • Payback (Tempo de Retorno): em quanto tempo o projeto “se paga”.

O Paybck pode ser simples ou composto. O uso do payback simples não considera a perda de valor no dinheiro no tempo, e está tecnicamente errada. Serve para análises de prazos curto (menor do que um ano) ou para análises muito prévias.

  • LCOE (Custo Nivelado de Energia): quanto custa gerar 1 kWh ao longo da vida útil do sistema.

 

Esses indicadores não se contradizem — eles se complementam. E saber interpretá-los é o que diferencia um profissional técnico de um decisor estratégico.

 

  1. Cenários e Riscos

Projetos reais enfrentam incertezas: variações na tarifa, mudanças regulatórias, falhas técnicas, inflação. Por isso, é necessário simular cenários (otimista, realista e pessimista), fazer análises de sensibilidade e entender qual é o risco de retorno abaixo do esperado.

Por que isso importa?

Porque estamos falando de capital investido, tempo de retorno e reputação técnica. Uma boa análise financeira protege o cliente de decisões ruins e posiciona você como um profissional confiável e estratégico. Não se trata apenas de fazer conta — trata-se de traduzir o comportamento de um sistema técnico em um resultado econômico claro.

Se você quiser se destacar no setor solar, dominar essa análise não é opcional — é essencial.

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